COISA LINDA – MONCHMONCH

MONCHMONCH despenca ladeira abaixo em “COISA LINDA” — e te convida a cair junto
MONCHMONCH é um artista brasileiro de punk experimental, cujo nome se origina da onomatopeia usada em BD’s para expressar mordidas ou algo sendo devorado, declarando a natureza antropofágica de digerir elementos estrangeiros do rock em algo brasileiro. Sonoridades disruptivas, narrativas absurdas e performances viscerais estão presentes em seu trabalho, uma espécie de manifesto punk solar.
Aperta o play e vem comigo. É como se você encostasse o rosto no chão quente de uma ladeira e deixasse o corpo ir, rolando, rachando a pele e ganhando um novo desenho a cada pedra.
No novo clipe de “COISA LINDA”, MONCHMONCH — projeto de Lucas Monch — te coloca exatamente aí: num passeio onírico, sensorial, onde a imagem vira textura e a textura vira sentimento.
Não é sobre suavizar a queda; é sobre aprender a olhar o mundo enquanto ela acontece.“COISA LINDA” encerra o disco MARTEMORTE, trabalhoso e inquieto, que nasceu entre Brasil e Portugal e tem um pano de fundo ficcional muito atual: bilionários que colonizam Marte, assistindo de longe ao colapso da Terra — e, em alguma medida, colaborando para ele.
Mesmo assim, a faixa que fecha o percurso tem uma leveza quase luminosa. É aquele respiro que chega tarde, mas chega.
E no vídeo dirigido pela Mole Enterprise, de Marina Mole, a tal leveza vem embrulhada em cores saturadas, camadas que se devoram, imagens que se comem, num ciclo natural tão bonito quanto brutal.Você percebe isso de cara: nada é ilustrativo; tudo é sensorial.
Monch some e reaparece entre efeitos, poeira, granulados, glitchs que lembram uma pintura viva. É o caos organizado, como define a diretora, uma natureza que se recicla na própria imagem, engolindo-se sem pudor — cobra, pássaro, minhoca, formiga, e assim por diante — como se a montagem também obedecesse ao ritmo ancestral da terra.E no centro dessa canção, uma dedicatória íntima: um amigo felino que acompanhou o artista por 15 anos, apelidado, claro, de Coisa Linda.
Você talvez já tenha passado por isso — o olhar calmo de um bicho querido que, mesmo no fim, te ensina a ver serenidade onde tudo parece desabar. MONCHMONCH transforma essa memória numa espécie de espelho: a doçura do gato vira a doçura possível de um planeta que, quem sabe, só encontra equilíbrio quando a nossa espécie deixa de ferir tanto.> “Essa música foi inspirada por um amigo felino que me acompanhou por 15 anos… No clipe estou a pular de um barranco, constantemente ferindo-me. É muito conclusivo terminar o álbum com essa música, por pensar que talvez o futuro de todos os organismos esteja melhor sem nossa espécie humana. Eu sonho pelo melhor da humanidade, e, sob infinitas guerras, eu tenho o mesmo olhar que vi no meu amigo: ver luz no nosso fim”, conta o artista.Marina, à frente da Mole Enterprise, conduziu a filmagem com espontaneidade — andar pelo bairro, achar a ladeira, filmar quase sem roteiro — e depois compor, na ilha de edição, o quadro que a canção pedia. Uma pintura em movimento, com efeitos que se acumulam e devoram uns aos outros. Não por capricho: por coerência. A música fala de natureza e violência, vida e morte, e o vídeo responde com esse fluxo que a gente reconhece quando observa o mundo por mais de cinco minutos sem piscar.> “Quis criar uma espécie de pintura pra música, com muitos efeitos e imagens que iam consumindo umas às outras — assim como acontece na natureza”, diz a diretora.
Se você acompanha a trajetória do MONCHMONCH, sabe: esse é um artista de nervo à flor da pele, que gosta de empurrar o rock para fora do trilho, misturando percussões brasileiras, sopros, ruídos e um humor ácido de quem escreve com a barriga e com as vísceras. Em Portugal, ele consolidou uma ponte luso-brasileira com shows, lançamentos ao vivo e uma presença cada vez mais intensa na cena alternativa. MARTEMORTE, recém-apresentado em digressão por lá, é o capítulo que costura essa fase — e “COISA LINDA” funciona como uma saída de emergência luminosa: dói, mas abre.O melhor jeito de entrar nesse universo é simples: coloca o fone, respira e deixa o corpo inclinar.
O vídeo te leva ladeira abaixo, mas o que fica não é a queda; é o olhar que você descobre no caminho — um olhar que aceita o fim como parte do ciclo e que, por isso, enxerga beleza onde a gente jurava que só havia ruína.Quando acabar, você talvez queira voltar ao início.
Não por vício, mas por reconhecimento. Porque, no fundo, “COISA LINDA” fala com você como quem acaricia um bicho velho: com respeito, com ternura, com a coragem de admitir que crescer é, às vezes, se arranhar inteiro — e seguir.