“Caetano e Bethânia para que a Realidade não nos Destrua”

Segundo: Nietzsche “Temos a arte para não morrer da verdade”. A recente turnê de Maria Bethânia e Caetano Veloso nos expõe a realidade, a vida, a morte, a atualidade de forma tão onírica que ainda nos faz sermos capazes de celebrar e dançar mesmo em tempos de tensão política, ameaças bélicas e recessões econômicas nas diversas potências mundiais.

https://www.instagram.com/mariabethaniaoficial/reel/DHRcZQASNtj/

Imagine-se em um momento de pausa, como em um sonho quando o tempo para e tudo é apenas festa e contemplação, enquanto compartilho com você um daqueles instantes inesquecíveis que só um grande show pode proporcionar. Foi exatamente assim que a noite se transformou no Rio de Janeiro, no último final de semana, quando Caetano e Maria Bethânia surpreenderam a todos ao apresentar uma canção inédita.

“Um Baiana”

Os da guerra acreditam que mandam na Terra

E, agora, ainda mais

Mas nós que vemos tudo não vamos ser mudos

É a paz

Já que eles não desistem

Nossas vozes disparam

num BaianaSystem

para abrir clareiras de paz

Nas fronteiras, nas eiras, nas leiras, nas beiras e nos quintais

Um BaianaSystem

Um baiana, um baiana, um baiana,

Um BaianaSystem

A canção, que parecia carregada de uma energia quase mística, traz uma fusão encantadora entre o tradicional da MPB e traços ousados e modernos.

Segundo Caetano: “Comecei a compor “Um Baiana” antes de nosso show estrear. Queria que a voz de Bethânia e a minha expressassem força de paz e de elegância, contra as feiúras que o mundo tem exibido. Mas não pude concluir a canção. A ideia veio da animação não-violenta que o Baiana System alimenta em Salvador, com as clareiras que se abrem na multidão para solos, duos, trios, todos mostrando excitação carnavalesca sem truculência ou disputa. É a paz.”

Você consegue sentir, ao ouvi-la, a dança sutil entre os ritmos – os acordes que se entrelaçam como numa conversa franca e profunda, onde cada nota tem o poder de acender uma centelha de emoção e reflexão. E, como sempre, as palavras se transformam em poesia. A letra, repleta de metáforas e suave como um sussurro, fala de paz, resistência e da esperança de uma nova harmonia em tempos turbulentos, nos convidando a repensar a força que cada um de nós carrega.

O arranjo da música merece um destaque à parte. Imagine a mistura certa entre os sons clássicos dos instrumentos que embalaram gerações e os toques eletrônicos que rompem com o esperado. Essa harmonia entre o antigo e o novo criou um clima mágico, onde cada acorde permitia que o público se perdesse na vastidão de sentimentos que a música evocava, como se o tempo parasse por alguns minutos, proporcionando um refúgio acolhedor.

Além do espetáculo musical, o show se revelou como um verdadeiro diálogo íntimo. A surpresa da estreia – que, a princípio, estava programada para o encerramento da turnê, mas acabou ganhando vida naquele bis tão inesperado – reforçou a conexão especial entre Caetano, sua parceira de palco, Maria Bethânia, e o público. Em meio a aplausos e lágrimas contidas, o cantor declarou: “Que a paz possa se sobrepor a esse horror”, ecoando um grito de esperança em meio a um cenário global marcado por incertezas.

Enquanto as vozes se uniam e as referências à energia vibrante e à irreverência do BaianaSystem marcavam presença na letra, cada espectador se via tocado de maneira única.

Foi, sem dúvidas, aquela noite que resgatou não apenas a memória de sucessos consagrados – como o emblemático “Samba do Avião” –, mas que também renovou o sentimento de pertencimento e de resistência através da arte.

Em um encontro que mescla história e renovação, o show revelou que a carreira de Caetano Veloso não se define apenas pelo passado brilhante, mas por uma contínua reinvenção. Cada acorde, cada verso e cada pausa se tornaram uma celebração da vida, da música e da paz, transformando o espetáculo em um verdadeiro manifesto de intimidade e revolução. É como se, naquele palco iluminado, cada um de nós se encontrasse e se reconectasse com a essência do que significa viver e sentir, em uma conversa sutil e sincera entre o artista e o espectador.

Em suma, “Um Baiana” não é apenas uma música inédita – é uma prece, um convite à reflexão e um abraço caloroso que transcende os limites do tempo e das convenções, reafirmando que a arte, quando bem feita, sempre encontra seu caminho para nosso coração.

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